domingo, 8 de fevereiro de 2009

Momento didático - emprego da vírgula nos trechos que sempre geram dúvidas

"Tem vírgula antes disso aqui ou nem?"; "Nome de alguém leva vírgula antes?"; "Aqui não tem vírgula mesmo, não é ? Só dá uma conferidinha rápida pra mim". Sem problemas, até porque se trata de uma frase que comumente traz à tona aquela interrogação, que salta da nossa testa. O pior é quando o uso da vírgula é facultativo; o leitor (que pode ser seu chefe, professor, supervisor etc) pode considerar errado algo que está certo pelo uso ou não da vírgula. Vamos aos trechos mais temerosos.

- A vírgula deve ser evitada antes da conjunção aditiva "e", isso é fato. Mas ela pode ser utilizada, sim, antes do "e" em alguns casos, como, por exemplo, valor adversativo. Na prática, é assim : "Ele foi ao cinema, e não gostou do filme". O "e" poderia ser substituído por "mas", percebem ? "Ele foi ao cinema, mas não gostou do filme". Neste caso, a vírgula pode ser colocada antes do "e".
Mais um exemplo para ilustrar melhor : "Já tenho mil reais, e (= mas) o preço do kit completo de Rock Band 2 ainda não diminuiu".

- Quando os sujeitos são diferentes, devemos usar a vírgula antes do conectivo "e" para ligar as orações. Calma que vou exemplificar para ficar menos grego : "A crise está eminente, e o mercado de games continua crescendo". Vejam : o primeiro sujeito é "crise". Depois, falei do "mercado de games", que é o outro sujeito. Quando há esta mudança de sujeito numa mesma oração, devemos usar a vírgula antes do "e". Se eu dissesse que "a crise está eminente e vai deixar muitos resquícios", aí sim, sem vírgula, porque desde o começo falei da crise sem mudar de sujeito.

- Nada de vírgula antes do conectivo "ou". Sob nenhuma hipótese. "A situação vai melhorar ou o mundo vai acabar". "Ou você estuda ou joga menos videogame". "Tudo vai ficar bem ou não". Nada de "tudo vai ficar bem, OU não". É sempre sem vírgula antes de "ou".

- Regra antiga, mas a gente sempre esquece : vocativo pede vírgula, rapaz ! Sempre que usarmos qualquer termo de chamamento, QUALQUER UM, devemos colocar a vírgula. Geralmente esquecemos quando usamos expressões diferentes para chamar alguém, e não necessariamente o nome. Exemplos : "vocativo pede vírgula, rapaz!". "Rapaz" foi o termo de chamamento, logo, pede vírgula ! Outros : "Você gostou do filme, cara?". "Ei, senhor, cuidado com a poça d'água!". "Não me julgue por ser um gamer, querida, é o meu hobbie". "E aí, Pedrão ! Tudo certo?".

- Oração explicativa deve ficar entre vírgulas, assim como oração restritiva. Vou exemplificar cada uma, respectivamente : "Esse joguinhos novos, que são muito violentos, fazem o maior sucesso". Eu poderia perfeitamente escrever somente que "esses joguinhos novos fazem o maior sucesso", mas coloquei um complemento explicativo ("que são muito violentos"), que deve ficar entre vírgulas.

O mesmo funciona para oração restritiva. Veja a importância da vírgula em duas frases iguais :
"Os desenvolvedores, que estão mais criativos, também sentem o peso da crise".
"Os desenvolvedores que estão mais criativos também sentem o peso da crise".
As duas frases estão corretas. Contudo, elas têm sentidos diferentes : na primeira, eu quis dizer que TODOS os desenvolvedores estão mais criativos e sentem o peso da crise.
Na segunda, minha intenção foi restringir que SOMENTE os desenvolvedores mais criativos também sentem o peso da crise. Ou seja : a ausência da vírgula, neste caso, restringe a oração. Se quiser generalizar (sem restrição), é só deixar entre vírgulas. Portanto, cuidado com o que você quer dizer !

- Para finalizar a postagem, os casos facultativos do uso da vírgula : antes de conjunção causal, temporal, concessiva, condicional, final e conformativa.
"Ele conseguiu terminar Oblivion, porque sempre se dedicou ao jogo." (oração causal. A vírgula antes de "porque" é opcional);
"Ele conseguiu terminar Oblivion, embora nunca tenha se dedicado ao jogo." (oração concessiva. A vírgula antes de "embora" é opcional);
"Ele só terminará Oblivion, caso se dedique mais ao jogo." (oração condicional. A vírgula antes de "caso" é opcional);
"Ele conseguiu terminar o jogo, conforme minha orientação." (oração conformativa. A vírgula antes de "conforme" é opcional);
"Ele tem se dedicado muito, para que consiga / a fim de que consiga terminar Oblivion." (oração final. A vírgula antes de "para que" ou "a fim de que" é opcional).
"Ela só vai gostar de você, quando você deixar de ser tímido." (oração temporal. A vírgula antes de "quando" é opcional).

Ufa ! Depois tem mais. Obrigado para quem leu até aqui.

Abrátzo

13 comentários:

Jeff disse...

I aee Brunão 50 kg, sr. didático heuehua. Das vírgulas num pega tanto, mas gostei dos pontos "pegadinhas" que vc colocou...me achei em várias..saudade de vc, pô !

Abração

Matheus disse...

I ae Brandão, certinho ?
Orra, curti essa parada. Lembra dos "virgulóides" que apelidávamos antigamente? rsrs, tem umas pérolas que preciso te contar. Bela postagem.

ABraços

Guilherme Giuntini disse...

Bela postagem Brands..

The wall rox eim.. só faltou um guitar hero no lugar da banda auhauhauhuhauha

abrass..

Jorge Pakkii disse...

Muito bom, cara! Eu ainda tinha certo receio sobre o caso do "ou", hehe.

Uma sugestão pra um futuro "Momento Didático" é sobre o uso do "lhe" e "te", que eu ainda não consegui entender bem.

Abraço, té mais!

sopro, vento, ventania disse...

Bruno,
Entrei no google para esclarecer uma dúvida que tinha sobre vírgulas e achei seu blog. Caramba, como você explica BEM. Muito, muito bom mesmo. Parabéns pela excelente didática; tô passada de contentamento.
Muito obrigada pela ajuda.
Cynthia

=Maíra= disse...

Oi, Bruno! Vc pode me indicar gramáticas que falem sobre o uso opcional de vírgulas? Obrigada!!

Cicilita disse...

Cara, Se não se usa vírgula antes do "ou" jamais, nunca explicaram isso para a Cecília. Não falo de mim, que sou Cecília, mas não Meireles.
Talvez vc devesse ler o poema infantil "Ou isto ou aquilo" de Cecília, a outra, a Meireles.
Abraço,
Cecilia Ferreira

Bruno Brandão Micali disse...

Pessoal, obrigado por todos os comentários.

Vamos às respostas.

Maíra, indico o livro "O Português do Dia-a-Dia", de Sérgio Nogueira Duarte da Silva, que mostra vários casos do uso facultativo ou não da vírgula, dentre várias outras controvérsias comuns do portuga.

Cecília Ferreira, obrigado pela indicação do poema de Cecília Meireles e pelo seu comentário. Quanto ao uso da vírgula antes do conectivo "ou", a vírgula deve, por regra, ser evitada antes desse conectivo. É claro que para fins literários pode-se usar - eu mesmo utilizo muito no meu dia-a-dia, dependendo da finalidade. Mas na gramática normativa, numa escrita atenta, evite quando possível. Só é cabível usar a vírgula antes do "ou" numa escrita normal quando esse conectivo estiver muito distante de um argumento inferido anteriormente, pois a vírgula dá aquela "aliviada" no fôlego, ajuda a posicionar o leitor no texto sendo lido. É quando vc escreve bla bla bla bla bla bla, OU bla bla bla...quando tiver muita coisa, não há problemas em colocar a vírgula pra dar aquela quebrada. Mas no geral, é melhor evitar a vírgula antes do "ou".

Abrátzos a todos !

Kath disse...

E no caso: OU seja...
Tem vírgula? ..., ou seja, ...

:)

Cicilita disse...

Bruno,
Dia-a-dia não faz mais uso do hífen; e algums regras só servem para auxiliar quem ainda não sabe fazer uso da escrita.
Abraço,
Cecilia Ferreira

Diego disse...

Rapaz, agora que li esse post e vi sua convicção, fiquei com dúvida. Sempre achei que tivesse que usar vírgula para separar "ou... ou", assim como "ora... ora". Na internet é difícil achar uma informação precisa. Você tem certeza da sua afirmação?

Kelly Freitas disse...

valeu demais pela dica!!

Marcelo disse...

Cara, a utilização de vírgula antes do ou é muito comum em textos legais. Tem o mesmo propósito da vígula antes do e. No caso, sua utilização é recorrente quando no caput há referência a uma autoridade e no parágrafo a duas outras das quais uma tem autoridade distinta e outra tem autoridade semelhante à do caput. Vide Decreto n° 7.689, de 02/03/2012 no seguinte artigo:
"Art. 6° A concessão de diárias e passagens aos servidores deverá ser autorizada pelo respectivo ministro de Estado.
§ 1o A concessão referida no caput poderá ser delegada ao secretário-executivo, ou autoridade equivalente."
Observe que o termo equivalente e ao ministro e não ao secretário, portanto a vírgula. Desconsiderando a possibilidade de reorganização dos comandos, o que te parece? isso é correto? pode ser uma hipótese única de exceção?